Uma melodia doce enchia o saguão. Notas medidas em uma sintonia harmônica de
preencher o peito, era como o despertar da floresta para mais um dia, era o som do vento
acordando a terra, era a dança das flores movidas pela brisa vespertina. O príncipe fora
informado que seu pai estava em uma reunião com o rei do continente logo antes de
entrar na câmara real, parou ainda à porta de madeira que pouco deixava escapar o som
das gargalhadas dos dois bêbados e das meretrizes. Oliver tomou os corredores guiado
pela melodia.
Catherina deslisava os dedos pelas teclas do pianos com maestria, sua postura estava
impecável como sempre. Os cabelos cor de mel encorpado, desciam em cachos bem
formados presos com um arranjo de pedras. Trajava um vestido verde claro acetinado
aberto com um forro branco.
As teclas alternavam em ritmos, até que pararam abruptamente fazendo o jovem príncipe
sobressaltar com o trovoar das notas finais.
- Nunca lhe disseram que é indelicado ficar a espiar uma dama Chevalier? - Ainda de
costas para o rapaz.
- Perdoe-me, senhora. Não quis lhe importuna-lhe.
- Aproxime-se...- Convidou cortês, o príncipe lhe obedeceu, então ela continuou. - É um
belo instrumento esse, sente-se a meu lado, já tem alguma afinidade com o instrumento?
Oliver sentou no banco um pouco receoso. Entretanto, a curiosidade em verificar o
estado de sua hospede lhe fez obedecer. A pele alva parecia ainda mais acetinada pela
luz da manhã. Procurou alguma das marcas da noite anterior, mas, a renda branca do
vestido lhe cobria do busto até o pescoço e não lhe permitia ver a pele. O rosto estava perfeitamente belo, dançando entre um branco e um rosado nas bochechas, acentuado
por lábios avermelhados, e um olhar forte. Não apresentava nenhuma marca arroxeada
como na noite anterior, mais um desses mistérios femininos de conseguir esconder as
imperfeições do rosto com seus pós e artigos.
- Então? - Catherina insistiu numa resposta chamando a atenção do príncipe – Você
toca?
- Em verdade ainda estou tendo aulas com um menestrel, Majestade
- Menestréis... Lembro-me de quando, tive minhas primeiras aulas, meu mestre me disse
algo que jamais vou esquecer. Antes de tocar com a técnica, você deve tocar com a alma,
porque ele – Fazendo um carinho no piano - Vai ser o seu segundo coração. Aquele mais
intimo e verdadeiro até mesmo que este que pulsa em seu peito.
- Perdoe-me senhora, não compreendi a metafora.
- Quando você estiver triste – Começando a tocar algumas notas – Você pode fazê-lo chorar por você. Nós dois sabemos que muitas vezes temos que manter um sorriso no rosto mesmo quando algo nos dilacera por dentro. Quando não podemos derramar uma lágrima por que seria inconveniente ou inadequado. - A melodia tinha a cor de um dia nublado, apertava o peito. Só uma coisa ecoava na mente do principe, que momentos teriam a levado a compor tão triste melodia? Então as notas trocaram o arranjo para um conjunto de notas vibrantes, como uma quadrilha de dança, algo que fez Oliver rir inconscientemente – Se você estiver alegre e estiver em alguma dessas situações chatas de cortesia, você pode fazê-lo dançar por sobre as mesas, pular numa euforia contagiante. - Então tomou um tom mais calmo – Se estiver sozinho ele pode ser sua companhia, mas se você não quiser ficar sozinho, bom, ele lhe dará a oportunidade de chamar alguém para acompanhá-lo em um dueto. - Enecerrando com notas simples e ritmadas. Oliver permaneceu com o sorriso sincero no rosto, entretanto, mas permaneceu apenas escutando – Vamos, chevalier, acompanhe-me...
- Desculpe, senhora. - Era de fato desconcertante tocar ao lado de uma dama, era uma proximidade demaisiada. Catherina não parecia acanhada, seu olhar não era doce como o da moça que conhecera no dia anterior, era na realidade como uma fruta de gosto forte na boca.
- Alteza... Não aceito recusa. Vamos, três notas. Um, dois, três... Um, dois, três...
O príncipe começou a acompanhar a rainha. Com pouco tempo, largado o acanhamento da partida, ambos já estavam tocando quadrilhas, acrescentando novas notas a gosto, e arriscando duetos.
- Tens talento, Chevalier, prometa-me que não vais abandoná-lo quando eu me for. - Soltou ainda com a animação da ultima peça tocada.
- Tens minha palavra. Ensaiarei a peça de Gregory para quando viestes visitar-me novamente. Para que toquemos juntos.
- Uma façanha audaciosa, mas... aceito o desafio! Será certamente um fardo prazeroso ter que ensaiá-la.
- Certamente que sim.
- Chevalier, há algo que gostaria que ficasse. Um presente.
- Pois não...
Catherina se pôs a desabotoar o terço que trazia no pescoço.
- Aqui, não quero ter-lhe desapontado com relação ao caminho de Deus, Ele é um pai justo e reto, seus filhos nem sempre conseguem entender seus desígnios, mas tudo tem um propósito. Deus não nos dá um inverno mais rigoroso do que a lareira que temos em casa possa nos aquecer.
- Senhora, eu não posso aceitar...
- Então finja que irá. Esse terço me ajudou muito em meus momentos de dúvida, a cada pedra uma prece. A cada oração uma esperança. Você tem um coração inocente e bom, infelizmente, esses são os que a vida mais gosta de tentar esmagar. Então construa sua fortaleza. E não perca a fé, Chevalier. Se não o quiser, dê a algum de seus servos quando eu me for. Mas aceite, finja que gostou e até mesmo minta dizendo que usará em alguma ocasião. Não sairei hoje desta casa com a sensação de ter afastado um homem de sua fé ou de tê-lo deixado crendo que Deus é hipócrita.
Oliver recebeu o terço contrariado. Era uma peça simples, pedras negras arranjadas com um cruxifixo.
- Então, o que acha dele?
- É realmente lindo...
Catherina deu um sorriso satisfeito
- Você gostou?
- Sim. De fato! - Respondeu com uma convicção invejável. Ainda mantendo o sorriso e arqueando uma das sobrancelhas
- Vai usar?
- Certamente que vou! Aguardarei apenas a ocasião adequada
- Compreendo - Completou ainda com um sorriso satisfeito de estar sendo acompanhada na brincadeira.
- Eu lhe agradeço Senhora.
Oliver levantou-se da banqueta, curvou-se segurando as pontas dos dedos de Catherina e lhe beijou levemente a mão. A rainha assentiu com seu sorriso de sempre. Ela não corou, e isso deixou o príncipe de certo modo frustrado, mesmo sem perceber. Catherina manteve sua postura altiva e soberana. Embora agora, seu olhar transparecesse um pouco mais a menina que na realidade era. Uma menina por trás de uma grande Rainha. Oliver se levantou, recompôs a postura e os pensamentos afastando da mente o cheiro de amêndoas da pele da rainha.
- Perdoe-me senhora, não compreendi a metafora.
- Quando você estiver triste – Começando a tocar algumas notas – Você pode fazê-lo chorar por você. Nós dois sabemos que muitas vezes temos que manter um sorriso no rosto mesmo quando algo nos dilacera por dentro. Quando não podemos derramar uma lágrima por que seria inconveniente ou inadequado. - A melodia tinha a cor de um dia nublado, apertava o peito. Só uma coisa ecoava na mente do principe, que momentos teriam a levado a compor tão triste melodia? Então as notas trocaram o arranjo para um conjunto de notas vibrantes, como uma quadrilha de dança, algo que fez Oliver rir inconscientemente – Se você estiver alegre e estiver em alguma dessas situações chatas de cortesia, você pode fazê-lo dançar por sobre as mesas, pular numa euforia contagiante. - Então tomou um tom mais calmo – Se estiver sozinho ele pode ser sua companhia, mas se você não quiser ficar sozinho, bom, ele lhe dará a oportunidade de chamar alguém para acompanhá-lo em um dueto. - Enecerrando com notas simples e ritmadas. Oliver permaneceu com o sorriso sincero no rosto, entretanto, mas permaneceu apenas escutando – Vamos, chevalier, acompanhe-me...
- Desculpe, senhora. - Era de fato desconcertante tocar ao lado de uma dama, era uma proximidade demaisiada. Catherina não parecia acanhada, seu olhar não era doce como o da moça que conhecera no dia anterior, era na realidade como uma fruta de gosto forte na boca.
- Alteza... Não aceito recusa. Vamos, três notas. Um, dois, três... Um, dois, três...
O príncipe começou a acompanhar a rainha. Com pouco tempo, largado o acanhamento da partida, ambos já estavam tocando quadrilhas, acrescentando novas notas a gosto, e arriscando duetos.
- Tens talento, Chevalier, prometa-me que não vais abandoná-lo quando eu me for. - Soltou ainda com a animação da ultima peça tocada.
- Tens minha palavra. Ensaiarei a peça de Gregory para quando viestes visitar-me novamente. Para que toquemos juntos.
- Uma façanha audaciosa, mas... aceito o desafio! Será certamente um fardo prazeroso ter que ensaiá-la.
- Certamente que sim.
- Chevalier, há algo que gostaria que ficasse. Um presente.
- Pois não...
Catherina se pôs a desabotoar o terço que trazia no pescoço.
- Aqui, não quero ter-lhe desapontado com relação ao caminho de Deus, Ele é um pai justo e reto, seus filhos nem sempre conseguem entender seus desígnios, mas tudo tem um propósito. Deus não nos dá um inverno mais rigoroso do que a lareira que temos em casa possa nos aquecer.
- Senhora, eu não posso aceitar...
- Então finja que irá. Esse terço me ajudou muito em meus momentos de dúvida, a cada pedra uma prece. A cada oração uma esperança. Você tem um coração inocente e bom, infelizmente, esses são os que a vida mais gosta de tentar esmagar. Então construa sua fortaleza. E não perca a fé, Chevalier. Se não o quiser, dê a algum de seus servos quando eu me for. Mas aceite, finja que gostou e até mesmo minta dizendo que usará em alguma ocasião. Não sairei hoje desta casa com a sensação de ter afastado um homem de sua fé ou de tê-lo deixado crendo que Deus é hipócrita.
Oliver recebeu o terço contrariado. Era uma peça simples, pedras negras arranjadas com um cruxifixo.
- Então, o que acha dele?
- É realmente lindo...
Catherina deu um sorriso satisfeito
- Você gostou?
- Sim. De fato! - Respondeu com uma convicção invejável. Ainda mantendo o sorriso e arqueando uma das sobrancelhas
- Vai usar?
- Certamente que vou! Aguardarei apenas a ocasião adequada
- Compreendo - Completou ainda com um sorriso satisfeito de estar sendo acompanhada na brincadeira.
- Eu lhe agradeço Senhora.
Oliver levantou-se da banqueta, curvou-se segurando as pontas dos dedos de Catherina e lhe beijou levemente a mão. A rainha assentiu com seu sorriso de sempre. Ela não corou, e isso deixou o príncipe de certo modo frustrado, mesmo sem perceber. Catherina manteve sua postura altiva e soberana. Embora agora, seu olhar transparecesse um pouco mais a menina que na realidade era. Uma menina por trás de uma grande Rainha. Oliver se levantou, recompôs a postura e os pensamentos afastando da mente o cheiro de amêndoas da pele da rainha.
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