1° Ato. Cena 2 - Jogos de tabuleiro


- Ele é um prisioneiro. Porque devemos prestar cuidados? – Maloy estava de fato intrigado. Era acostumado a cuidar de prisioneiros e dar a eles bons tratos nunca foi uma opção.
- Não tenho intenção de confrontar-lhe a autoridade, conde. Mas estamos falando de um líder. Um homem comum até pode se rebaixar à dor. Mas um rei, um líder jamais entregaria seu povo de forma deliberada. Vi meu pai tratar com homens de autoridade diversas vezes. Ele sempre me disse que a dor derrubar os fracos. Os fortes devem ser derrubados pela inteligência. Mate-o e fará o que ele quer. Mortos não entregam informações

Maloy ignorou Catherina e se dirigiu ao rei
– Senhor. Minha voz de autoridade será rebaixada ante a voz de uma mulher?! Sentimentais elas são. Lamentam as chagas dos traidores. Não possuem pulso para o açoite. 
– Estou seguindo seus métodos há semanas, conde, e há de convir que não conseguiste resultados. Faremos ao modo de Catherina. Se não houver avanços... Bom, você poderá esquartejá-lo se quiser. Podemos por a cabeça dele em um local onde seu povo possa encontrá-la.

O conde travou os dentes. Enquanto saia, sussurrou de modo que somente Catherina pudesse escutar:
- O que fará, mulher. Deitar-se-á com ele para que lhe diga o que deseja enquanto geme em seu leito?!
A resposta de Catherina foi um tapa firme que lhe fez virar a face. Ainda com a fronte em chamas e tomado pela fúria de ser esbofeteado por uma mulher, Maloy ergueu a mão para devolver o tabefe. Porém Catherina segurou-lhe o braço. Augusto que a esta altura já havia se levantado do trono e se aproximado enfim entreviu
– Catherina, solte-o. – Ela o obedeceu. Porém para sua própria surpresa recebeu um bofetada do próprio rei – Se seu pai não lhe ensinou sobre  modos, eu o farei.
– Ele levantou contra minha honra, senhor.
– Mas que injúria. Jamá-
– Calem-se! Catherina; vá cuidar de seu prisioneiro. Quanto a você, Maloy, da próxima vez que levantar a
mão à minha rainha serás preso e executado por traição à Coroa. Agora saia de minha presença, encontre algo de útil para fazer além de me importunar o juízo.

Trouxeram pão, bolo e leite, havia também jarra com água e uma caneca de cerveja à porta da cela. Erick, entretanto, não tocara em nenhum dos alimentos. Estava acostumado com a pouca ração que lhe era servida, isso quando lhe era servida. Trouxeram também mantas grossas e peles para servir-lhe de leito. Luxos demasiado suspeito para ser bem visto.
- Buongiorno, Giulliano. Come stai? – Soou pelo corredor
- Oh Maestà. – O carcereiro se apressou em retomar a postura e curvou-se - Cosa ci fai signora qui?
Catherina apena olhou para o prisioneiro. Ele tinha o porte de um guerreiro. A pele corada pelo sol estava banhada em sangue. Haviam cortes de vários formatos espalhado pelo seu corpo assim como algumas queimaduras. Hematomas formavam quase um mosaico de amarelo e roxo. Inchaços deformavam as linhas do rosto. O próprio carcereiro não conseguia ficar olhando para o homem por muito tempo que as náuseas vinham lhe visitar. Por fim, Giulliano abriu a cela extremamente receoso.
- Vejo que negaste a comida... Não está do seu agrado? - A voz era firme, porém, mansa. Havia um leve sorriso nos lábios e um olhar que expressava uma mistura de ternura, pena e indignação. A dama possuía um vestido aberto, verde acetinado forrado com florais. O cabelo era castanho e estava preso de forma displicente de modo que alguns cachos caiam pelos ombros. Os olhos eram azuis, seguros, altivos, e estranhamente encantadores. Erick se perguntou por que uma mulher da corte estaria nas celas. Mas a pergunta não chegou aos lábios. Secos, famintos, com gosto de sangue, eles se recusavam a fazer qualquer movimento.

O farfalhar dos tecidos se contraindo pelas barras de metal soava soberano, tanto quanto a postura da mulher. - Meu nome é Catherina. – e curvou-se da forma mais respeitosa que se poderia curvar. O guerreiro continuou imóvel, somente os olhos se moviam quase em um esforço extremo. A rainha então se abaixou de modo a ficar na mesma altura que os olhos do prisioneiro
– Sei que não confia em nós. Tens todas as razões do mundo para não confiar. - Então tomou a jarra de água em suas mãos e pegou um copo. – Vamos então testar a sua sorte, Catherina encheu o copo com a água da jarra e tomou alguns goles. – Posso então convidá-lo a partilhar de meu destino? – Soltou oferecendo o restante da água.

O guerreiro começou a se mover lentamente para pegar o copo. Catherina se aproximou um pouco mais e encostou o copo nos lábios do prisioneiro de modo a dar-lhe de beber. O vestido em contato com a pele do prisioneiro se embebia em sangue, mas, ela parecia não se importar. Por mais cuidadosa que fosse, filetes de água insistiam em escorrer pela boca e se misturar sangue se perdendo no busto. Erick fechou os olhos apreciando a água. Nunca tinha percebido como seu gosto era maravilhoso.

Quando abriu os olhos novamente havia uma mulher já de avançada idade colocando uma bacia com água à porta da cela. Havia também uma caixa de madeira com alguns panos dobrados em cima
- Eu pedi para que trouxe-se um pouco de água com sal e vinagre para lavar as feridas. Preciso que não desmaie. Não aprecio a idéia de costurar um morto.
- Por que está fazendo isso?– Sussurrou
- Porque se eu não lavar as feridas elas podem piorar. O sal vai conter o sangramento. O vinagre vai limpá- las. Algumas das feridas são demasiadas profundas. Então será necessário que eu as costure. Como a uma roupa, entende?
- Eu poderia matá-la aqui e agora
- Não, não poderia. Eu, com minha agulha estou mais perigosa que você neste momento.

E como Catherina previu, Erick desmaiou. Quando acordou estava limpo, deitado em peles que estavam no chão. Havia cobertas. Próximo as grades havia bolo, pão e leite, havia também uma jarra com água. Vendo que o prisioneiro acordara o guarda se aproximou da cela, bebeu um pouco do leite e da água, tirou também um pequeno pedaço do pão e do bolo. Somente a caneca de cerveja não se encontrava mais do lado de dentro da cela. Esta, poderia ser percebida por um olhar atento escondida atrás da banqueta na qual o carcereiro descansava.
- Sua majestade me pediu para de provasse de toda comida que lhe fosse servida.
- Por quanto tempo eu dormi?
- Três dias. Si dovrebbe essere molto importante. A rainha esta gastando bastante sal con voi.
- Ela veio à cela?
- Sua majestade saiu há pouco. Creio que ainda possa vê-la pela janela.
- O que ela veio fazer?
- O mesmo que fez por todos estes dias. Tratar-lhe as feridas.

Catherina foi chamada ao gabinete real. Lá o rei, o conde Maloy “A mão do Rei“ como preferia ser chamado, e Duque Galarddi – Primeiro ministro das Guerras, a aguardavam.

- Seja bem vinda, minha rainha - Cumprimentou o rei logo em sua chegada.
Galarddi a curvou-se gentilmente enquanto Maloy prestou reverencia de uma fora extremamente pomposa e exagerada. Sentia-se completamente confrontado pela mera presença da rainha. Desde que casara, augusto lhe dava cada vez menos ouvidos. A criança que antigamente lhe atendia a todas as orientações estava ficando mais altiva com a influência da rainha. E isto não estava se adequando aos planos que a “Mão do rei” tinha para o futuro.

- Temos alguma novidade a respeito do prisioneiro?
- De fato, pelo que pude perceber a ameaça de rebelião não de atém somente aos povos do norte. Eles seriam um estopim. O prisioneiro vem possivelmente das terras depois da floresta de Gofrey. Jovens são treinados desde cedo. Então acredito que tenham algum conhecimento de força armada e não estou falando
apenas de espadas. Pelo que entendi, eles não estão restritos a uma região. Estão fazendo suas alianças.

 - Não quero duvidar de sua palavra, minha soberana rainha. Mas, como pode afirmar com tanta certeza este leque de informações se o prisioneiro ainda se encontra inconsciente?- As palavras de Maloy sibilavam como uma serpente e se mostravam tão venosas quanto o animal.
- A cor da pele do prisioneiro é demasiada corada para ser dos povos do norte já que naquelas terras o sol não é tão forte. Mesmo que treinasse ao sol por dias a fio. Não tem como ganhar cor naquela região. Nas poucas partes da pele pene que não fora dilacerada pelas torturas de nosso conde Maloy... 
    - Táticas cruéis, porém necessárias – Retrucou o Conde a interrompendo em um tom baixo 
    - Que de fato não se mostrou eficaz 
    - Que servirá ao propósito de colocá-la como um anjo que o salvou de um tirano cruel e torturador. Deste modo ele será fiel a sua salvadora e lhe atenderá de forma mais branda. 
    - Não se fazia necessário que me fosse dado o posto de salvadora. 
    - Mas lhe ajudará em sua empreitada. Vossa Magnificência. É preciso que haja a escuridão para ressaltar a existência da luz. Ninguém clamaria a Deus se não fosse por medo do diabo. É preciso que haja a crueldade e a dor para que as pessoas dêem o devido valor à bondade. 

- Bom – Atalhou Galarddi já incomodado pela disputa na situação – Já temos todos os papeis e funções bem definidas. Agora, majestade... Prossiga... 
- Agradeço Galarddi... Retomando.. pude perceber que já havia cicatrizes antigas. O que afirma que treina desde jovem. Pela irregularidade dos formatos, notei que usam diversas armas já que as cicatrizes são em lugares precisos. A respeito das alianças. Bem este seria um ótimo motivo para um guerreiro de uma tribo do leste falar Espanhol enquanto alucina pela febre. 
 - Como tens demasiada certeza que se tratava de “Espanhol”, minha senhora soberana. As tribos do leste possuem uma forte influencia do papado. Ele pode ter falado latim. 
- Senhor conde. Tenho tanta certeza porque tive um professor daquelas terras desde meus oito anos de idade e domino a língua sabendo bem a distinção entre a língua deste povo e a liturgia de latim feita na catedral. Existem muitos comerciantes naquelas terras. Muitas chances de aliança. Aprender a língua deles seria algo essencial. 
- São observações bastante preciosas, minha rainha - Acentuou Galarddi – Podemos começar a trabalhar com essas informações. 
- Sim, podemos trabalhar com estas especulações. Minha magnífica e soberana Rainha, Meu senhor e Rei. Duque... Dêem-me sua licença ...

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